maio 05, 2008
Henri Bergson
"O bergsonismo é uma dessas raras filosofias nas quais a teoria da pesquisa se confunde com a própria pesquisa, excluindo essa espécie de desdobramento reflexivo que engendra as gnoseologias, as propedêuticas e os métodos. Do pensamento bergsoniano pode-se repetir, em certo sentido, o que foi dito do spinozismo: que não existe para ele método substancialmente e conscientemente distinto da meditação sobre as coisas, que o método, cuja marcha geral ela de algum modo desenha, é antes imanente a essa meditação. Bergson insistia outrora com bastante inquietação sobre a vaidade dos fantasmas ideológicos que se insinuam perpetuamente entre o pensamento e os fatos e mediatizam o conhecimento. A filosofia da vida esposaria a curva sinuosa do real sem que nenhum método transcendente viesse relaxar essa estreita aderência; mais ainda, seu "método" seria a própria linha do movimento que conduz o pensamento na espessura das coisas."Vladimir Jankélévitch: Henri Bergson, Paris, PUF, 1959, p. 5.
Publicada por
José Pinheiro Neves
à(s)
segunda-feira, maio 05, 2008
Sem comentários:
Hiperligações para esta mensagem
Etiquetas:
Bergson
agosto 02, 2007
Espaço-temporalidade, Trabalho Imaterial e Resistência: reflexões sobre o cotidiano do trabalho contemporâneo
"Conforme Pelbart (2003, p.97),o ideal hoje é ser o mais enxuto possível, o mais leve possível, ter o máximo de mobilidade, o máximo de conexões úteis, o máximo de informações, o máximo de navegabilidade, a fim de poder antenar para os projetos mais pertinentes com duração finita, para o qual se mobilizam as pessoas certas, e ao cabo do qual estão todas novamente disponíveis para outros convites, outras propostas, outras conexões.
O modo conexionista do capitalismo traz como conseqüências a finitude das fronteiras, tal como a modernidade líquida descrita por Bauman (2001), proporcionando “a liberação do capital, de sua fronteira antes restrita, estanque, pesada, mecânica, podendo agora, no ciclo produtivo mobilizar o homem por inteiro, sua vitalidade mais própria e visceral, sua ‘alma’” (PELBART, 2003, p.99).
[...]
Atravessado pela velocidade e pela mobilidade, o trabalho imaterial demanda do trabalhador da sociedade da informação um esquecimento do que passou. Não mais deve ter no passado o apego às referências para a construção do futuro.
O trabalhador, em contexto de trabalho imaterial deve desapegar-se, desprender-se da concepção de trabalho duramente construída na lógica taylorista/fordista e assumir as novas demandas, deveria derreter os sólidos, como lembra Bauman (2001).
No entanto, esse “derreter de sólidos” antes de significar a liberdade do sujeito, dentro de uma nova ordem, significa uma nova amarra, um novo formato, um novo molde: nenhum molde foi quebrado sem que fosse substituído por outro; as pessoas foram libertadas de suas velhas gaiolas apenas para serem admoestadas e censuradas caso não conseguissem se realocar, através de seus próprios esforços dedicados, contínuos e verdadeiramente infindáveis, nos nichos pré-fabricados da nova ordem (BAUMAN, 2001, p.13)"
in Vânia Gisele Bessi,
"Espaço-temporalidade, Trabalho Imaterial e Resistência: reflexões sobre o cotidiano do trabalho contemporâneo"
http://pascal.iseg.utl.pt/~socius/publicacoes/wp/wp200701.pdf
O modo conexionista do capitalismo traz como conseqüências a finitude das fronteiras, tal como a modernidade líquida descrita por Bauman (2001), proporcionando “a liberação do capital, de sua fronteira antes restrita, estanque, pesada, mecânica, podendo agora, no ciclo produtivo mobilizar o homem por inteiro, sua vitalidade mais própria e visceral, sua ‘alma’” (PELBART, 2003, p.99).
[...]
Atravessado pela velocidade e pela mobilidade, o trabalho imaterial demanda do trabalhador da sociedade da informação um esquecimento do que passou. Não mais deve ter no passado o apego às referências para a construção do futuro.
O trabalhador, em contexto de trabalho imaterial deve desapegar-se, desprender-se da concepção de trabalho duramente construída na lógica taylorista/fordista e assumir as novas demandas, deveria derreter os sólidos, como lembra Bauman (2001).
No entanto, esse “derreter de sólidos” antes de significar a liberdade do sujeito, dentro de uma nova ordem, significa uma nova amarra, um novo formato, um novo molde: nenhum molde foi quebrado sem que fosse substituído por outro; as pessoas foram libertadas de suas velhas gaiolas apenas para serem admoestadas e censuradas caso não conseguissem se realocar, através de seus próprios esforços dedicados, contínuos e verdadeiramente infindáveis, nos nichos pré-fabricados da nova ordem (BAUMAN, 2001, p.13)"
in Vânia Gisele Bessi,
"Espaço-temporalidade, Trabalho Imaterial e Resistência: reflexões sobre o cotidiano do trabalho contemporâneo"
http://pascal.iseg.utl.pt/~socius/publicacoes/wp/wp200701.pdf
Publicada por
José Pinheiro Neves
à(s)
quinta-feira, agosto 02, 2007
2 comentários:
Hiperligações para esta mensagem
junho 20, 2007
Um dia
Um dia
Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.
O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.
Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.
O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.
Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Publicada por
José Pinheiro Neves
à(s)
quarta-feira, junho 20, 2007
Sem comentários:
Hiperligações para esta mensagem
novembro 25, 2006
"Vida nua, vida besta, uma vida" por Peter Pál Pelbart
"Ao reduzir a existência ao seu mínimo biológico, o biopoder contemporâneo nos transforma em meros sobreviventes.
O contexto contemporâneo se caracteriza por uma nova relação entre o poder e a vida. Por um lado, uma tendência que poderia ser formulada como segue: o poder tomou de assalto a vida. Isto é, ele penetrou todas as esferas da existência, e as mobilizou inteiramente, pondo-as para trabalhar. Desde os gens, o corpo, a afetividade, o psiquismo, até a inteligência, a imaginação, a criatividade, tudo isso foi violado, invadido, colonizado, quando não diretamente expropriado pelos poderes. [...]
O corpo
Tomemos a título de exemplo o superinvestimento do corpo que caracteriza nossa atualidade.Desde algumas décadas, o foco do sujeito deslocou-se da intimidade psíquica para o próprio corpo. Hoje, o eu é o corpo. A subjetividade foi reduzida ao corpo, a sua aparência, a sua imagem, a sua performance, a sua saúde,a sua longevidade. O predomínio da dimensão corporal na constituição identitária permite falar numa "bioidentidade". É verdade que já não estamos diante de um corpo docilizado pelas instituições disciplinares, como há cem anos atrás,corpo estriado pela máquina panóptica, o corpo da fábrica, o corpo do exército,o corpo da escola. Agora cada um se submete voluntariamente a uma ascese,científica e estética a um só tempo. É o que Francisco Ortega chama de bioascese (7). Por um lado, trata-se de adequar o corpo às normas científicas da saúde, longevidade, equilíbrio, por outro, trata-se de adequar o corpo às normas da cultura do espetáculo, conforme o modelo das celebridades.
Como o diz Jurandir Freire Costa, a obsessão pela perfectibilidade física, com as infinitas possibilidades de transformação anunciadas pelas próteses genéticas,químicas, eletrônicas ou mecânicas, essa compulsão do eu para causar o desejo do outro por si, mediante a idealização da imagem corporal, mesmo às custas do bem-estar, com as mutilações que o comprometem, substituem finalmente a satisfação erótica que prometem pela mortificação auto-imposta8. O fato é que abraçamos voluntariamente a tirania da corporeidade perfeita, em nome de um gozo sensorial cuja imediaticidade torna ainda mais surpreendente o seu custo em sofrimento.
A bioascese é um cuidado de si, mas, à diferença dos antigos, cujo cuidado de si visava a bela vida, e que Foucault chamou de estética da existência, o nosso cuidado visa o próprio corpo, sua longevidade,saúde, beleza, boa forma, felicidade científica e estética, ou o que Deleuze chamaria a "gorda saúde dominante". Não hesitamos em qualificá-lo, mesmo nas condições moduláveis da coerção contemporânea, de um corpo fascista - diantedo modelo inalcançável, boa parcela da população é jogada numa condição de inferioridade sub-humana. Que, ademais, o corpo tenha se tornado também um pacote de informações(9), um reservatório genético, um dividual estatístico,com o qual somos lançados ao domínio da biossociabilidade ("faço parte do grupo dos hipertensos, dos soropositivos" etc.), isto só vem fortalecer os riscos da eugenia. Estamos às voltas, em todo caso, com o registro da vida biologizada… Reduzidos ao mero corpo, do corpo excitável ao corpo manipulável, do corpo espetáculo ao corpo automodulável, é o domínio da vida nua. Continuamos no âmbito da sobrevida, da produção maciça de "sobreviventes", no sentido amplo do termo."
Sobrevivencialismo
1 - No rastro de Foucault,Deleuze, Negri, Lazzarato e outros, tal mapeamento foi tentado em “Vida Capital”,São Paulo, Iluminuras, 2003.
2 - G. Agamben, "Ce Qui Reste d´Auschwitz", Paris Payot & Rivages, 1999.
3 - J. Améry, "Par Delà le Crime et le Chatiment", Arles, Actes Sud, 1995
4 - P. Levi, “É Isto um Homem?”, Rio de Janeiro, Rocco, 2000.
5 - M. Foucault, "La Volonté de Savoir", Paris, Gallimard, 1976, p 179.
6 - G. Agamben, "Ce Qui Reste d´Auschwitz", op. cit, p. 205.
7- Francisco Ortega, "Da Ascese à Bioascese, Ou do Corpo Submetido à Submissãodo Corpo", in “Imagens de Foucault e Deleuze”, Rio de Janeiro, DP&A,2002.
8 - Jurandir Freire Costa, “O Vestígio e a Aura: Corpo e Consumismo na Moral do Espetáculo”, Rio de Janeiro, Garamond, 2004.
9 - Paula Sibília, “O Homem Pós-orgânico”, Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 2002.
Ver aqui o artigo completo:
http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2792,1.shlm
Publicada por
José Pinheiro Neves
à(s)
sábado, novembro 25, 2006
2 comentários:
Hiperligações para esta mensagem
novembro 05, 2006
"Os principais estratos que manietam o homem são o organismo, mas também a significância e a interpretação, a subjectivação e a sujeição".
"Os principais estratos que manietam o homem são o organismo, mas também a significância e a interpretação, a subjectivação e a sujeição.
O conjunto de todos eles separa-nos do plano de consistência e da máquina abstracta, precisamente onde já não há regime de signos, mas onde a linha de fuga efectua a sua própria positividade potencial, e a desterritorialização a sua potência absoluta.
Ora, a este respeito, o problema fundamental é inverter o agenciamento mais favorável: fazê-lo passar, da sua face orientada para os estratos, para a outra face orientada para o plano de consistência ou o corpo sem órgãos.
A subjectivação leva o desejo a tal ponto de excesso e de desprendimento que este deve, ou afundar-se num buraco negro, ou então mudar de plano. Desestratificar-se, abrir-se a uma nova função, a uma função diagramática. Que a consciência deixe de ser o seu próprio duplo, e que a paixão já não seja o duplo de um para o outro. Fazer da consciência uma experimentação de vida, e a paixão num campo de intensidades contínuas, uma emissão de signos-partículas. Construir o corpo sem órgãos da consciência e do amor. Utilizar o amor e a consciência para abolir a subjectivação: 'para ser um grande amante, o magnetizador e o catalizador, há que ter sobretudo a sabedoria de não ser mais que o último dos idiotas'.
Utilizar o Eu penso para um devir-animal, e o amor para um devir-mulher do homem. Des-subjectivar a consciência e a paixão. Será que não existem redundâncias diagramáticas que não se confundam nem com os significantes, nem com as subjectivações? Redundâncias que já não seriam nódulos de arborescências, mas sim re-nodulações e prolongamentos num rizoma?
Ser gago da linguagem, um estrangeiro na sua própria língua."
(Gilles Deleuze et Félix Guattari, Capitalisme et Schizophrénie. Mille Plateaux, Paris, Les Editions de Minuit, 1980, pp. 167-168)
O conjunto de todos eles separa-nos do plano de consistência e da máquina abstracta, precisamente onde já não há regime de signos, mas onde a linha de fuga efectua a sua própria positividade potencial, e a desterritorialização a sua potência absoluta.
Ora, a este respeito, o problema fundamental é inverter o agenciamento mais favorável: fazê-lo passar, da sua face orientada para os estratos, para a outra face orientada para o plano de consistência ou o corpo sem órgãos.
A subjectivação leva o desejo a tal ponto de excesso e de desprendimento que este deve, ou afundar-se num buraco negro, ou então mudar de plano. Desestratificar-se, abrir-se a uma nova função, a uma função diagramática. Que a consciência deixe de ser o seu próprio duplo, e que a paixão já não seja o duplo de um para o outro. Fazer da consciência uma experimentação de vida, e a paixão num campo de intensidades contínuas, uma emissão de signos-partículas. Construir o corpo sem órgãos da consciência e do amor. Utilizar o amor e a consciência para abolir a subjectivação: 'para ser um grande amante, o magnetizador e o catalizador, há que ter sobretudo a sabedoria de não ser mais que o último dos idiotas'.
Utilizar o Eu penso para um devir-animal, e o amor para um devir-mulher do homem. Des-subjectivar a consciência e a paixão. Será que não existem redundâncias diagramáticas que não se confundam nem com os significantes, nem com as subjectivações? Redundâncias que já não seriam nódulos de arborescências, mas sim re-nodulações e prolongamentos num rizoma?
Ser gago da linguagem, um estrangeiro na sua própria língua."
(Gilles Deleuze et Félix Guattari, Capitalisme et Schizophrénie. Mille Plateaux, Paris, Les Editions de Minuit, 1980, pp. 167-168)
Publicada por
José Pinheiro Neves
à(s)
domingo, novembro 05, 2006
1 comentário:
Hiperligações para esta mensagem
Subscrever:
Mensagens (Atom)
