agosto 13, 2012

"Pareja" de Monserrat Gudiol







Na imagem, há uma dureza no olhar da mulher que tem, ao mesmo tempo, algo de estranho e algo de "determinado", intenso. Como se houvesse um ponto claro, uma imagem-sentimento que ela transporta e que a anima. O ponto central que anima a dança. Poderia supor-se que talvez fosse raiva ou, porventura, angústia revoltada. Nada disso. É uma força determinada. Ao mesmo tempo, o homem caracteriza-se por uma espécie de carinho. Talvez no sentido anglosaxónico do "take care". Tomar conta. Ter cuidado, carinho e desvelo. Como se ela fosse ao mesmo tempo, uma criança e um ser com milhares de anos.

jpn

agosto 04, 2012

“Reagregando o social: uma introdução à Teoria do Ator-Rede”, do antropólogo francês Bruno Latour


EDUFBA lança o livro “Reagregando o social: uma introdução à Teoria do Ator-Rede”, do antropólogo francês Bruno Latour, em Salvador (06/08/2012)


Em parceria com a Editora da Universidade do Sagrado Coração (EDUSC) e com o Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporânea (PÓSCOM/UFBA), a Editora da Universidade Federal da Bahia (EDUFBA) apresenta a primeira tradução em português do livro Reassembling the Social, de Bruno Latour, com o título de Reagregando o social: uma introdução à Teoria do Ator-Rede. O lançamento integra a programação do Simpósio Internacional A Vida Secreta dos Objetos e acontece nesta segunda-feira, 6, às 19h, no ICBA, em Salvador.

O que vem a ser uma sociedade, o que significa a palavra social? De que modo o rumo de uma sociedade pode ser alterado? As respostas para estas e outras questões são encontradas em Reagregando o social. Neste livro, o antropólogo francês Bruno Latour apresenta a Sociologia de maneira menos antropocêntrica, trazendo os não-humanos ao centro do debate sociológico. O autor acredita que para entender ainda mais o humano é preciso partir da ideia de que os objetos são dotados de agência, ou seja, têm poder de ação.

Além do lançamento de Reagregando o social e de conferência com o autor, o Simpósio conta com uma série de diálogos com outros pesquisadores, nacionais e internacionais, como Graham Harman, Richard Grusin, Siegfried Zielinski, André Lemos, Erick Felinto, Adalberto Müller e Vinicius Andrade Pereira. O objetivo é unir conhecimentos de diversas áreas de estudo, como Comunicação Social, Literatura e Filosofia, promovendo a discussão de temas, teorias e perspectivas metodológicas da pesquisa mundial. 


julho 04, 2012

Ecosofia ou ecologia profunda








O QUE É A ECOSOFIA OU ECOLOGIA PROFUNDA?    

     "A "Ecosofia" é a procura duma forma de vida menos antropocêntrica nas relações do homem com o meio ambiente incluindo o ambiente digital, com a sua mente e com os outros humanos. Trata-se de um campo transdisciplinar de conhecimento e experimentação que integra tanto as ciências humanas, naturais e económicas como a estética e as formas comuns e, muitas vezes, marginalizadas do saber." 

[José Pinheiro Neves]



     O conceito surge em 1972 numa conferência do pensador ecologista norueguês Arne Naess, sendo desenvolvido fundamentalmente por três pensadores: o referido Arne Naess, pai da ecologia profunda, o pós-marxista e psiquiatra Félix Guattari (não esquecendo a contribuição fundamental de Gilles Deleuze) e, mais recentemente, o sociólogo francês Michel Maffesoli.

     Arno Naess definiu a ecosofia da seguinte maneira: "Por Ecosofia eu quero dizer uma filosofia de harmonia ou equilíbrio ecológico. Filosofia como um tipo de sofia ou sabedoria é abertamente normativa, contém normas, regras, postulados, anúncio de prioridades e hipóteses relacionados à situação do universo. Sabedoria é sabedoria política, prescrição, não apenas descrição científica e predição. Os detalhes de uma ecosofia conterão muitas variações devidas a diferenças significativas relacionadas não apenas aos ‘fatos’ da poluição, dos recursos naturais, da população, etc. mas também a prioridades de valores".
in Vários, The Deep Ecology Movement: An Introductory Anthology, Berkeley, North Atlantic Publishers, 1995, p. 52.


     Num livro recente, Michel Maffesoli define a ecosofia como sendo uma forma de  "compreender a metamorfose em curso. Ela que nos faz passar de progressismo (que foi vigoroso, que deu bons resultados, mas que se torna um pouco doentio) para uma progressividade que reinveste em ‘arcaísmos’: povo, território, natureza, sentimentos, humores… que pensávamos ter deixado para trás". 
in Michel Maffesoli, Saturação, São Paulo, Iluminuras, 2010.


     As três ecologias de Félix Guattari: ambiental, social e mental

 "O princípio particular à ecologia [ecosofia] ambiental é o de que tudo é possível tanto as piores catástrofes quanto as evoluções flexíveis. Cada vez mais, os equilíbrios naturais dependerão das intervenções humanas. Um tempo vira em que será necessário empreender imensos programas para regular as relações entre o oxigênio, o ozônio e o gás carbônico na atmosfera terrestre.
Vários, The Deep Ecology Movement: An Introductory Anthology, Berkeley, North Atlantic Publishers, 1995,  p. 52.

 Segundo Félix Guattari, "a ecosofia social consistira em desenvolver praticas especificas que tendam a modificar e a reinventar maneiras de ser no seio do casal, da familia, do contexto urbano, do trabalho, etc."
in Félix Guattari, As Três Ecologias, Campinas, Brasil, Papirus,1990.

 "A ecosofia mental, por sua vez, será levada a reinventar a relação do sujeito com o corpo, com o fantasma, com o tempo que passa, com os ‘mistérios’ da vida e da morte. Ela será levada a procurar antídotos para a uniformização midiática e telemática, o conformismo das modas, as manipulações da opinião pela publicidade, pelas sondagens etc."
Vários, The Deep Ecology Movement: An Introductory Anthology, Berkeley, North Atlantic Publishers, 1995, p. 52.
    
Definição de ecosofia

 Segundo André Bürger,  é a busca duma dimensão ecossistêmica e não mais antropocêntrica das relações do homem com o meio ambiente, com a sua mente e com os outros humanos. Trata-se de um campo de conhecimento que integra as ciências humanas, naturais e económicas. 

     Definição inspirada em André Bürger, "Ecosofia, redes digitais sustentáveis e os efeitos da tecnologia no homem moderno", Disponível em: http://envolverde.com.br/ambiente/artigo/ecosofia-redes-digitais-sustentaveis-e-os-efeitos-da-tecnologia-no-homem-moderno/ [acesso em 15/05/2011]- Publicado originalmente no Nós da Comunicação e retirado do site Plurale.


     Inspirado no trabalho de Félix Guattari, Gilles Deleuze e Michel Maffesoli, sugiro uma definição mais ampla e abrangente: 

     "A "Ecosofia" é a procura duma forma de vida menos antropocêntrica nas relações do homem com o meio ambiente incluindo o ambiente digital, com a sua mente e com os outros humanos. Trata-se de um campo transdisciplinar de conhecimento e experimentação que integra tanto as ciências humanas, naturais e económicas como a estética e as formas comuns e, muitas vezes, marginalizadas do saber." 

José Pinheiro Neves



Texto inspirado (nomeadamente as citações) em:



dezembro 03, 2009

Deleuze como "surfista"

O "surf" como inspiração do filósofo francês Gilles Deleuze


"Afora os aspectos que reúnem em um só platô as filosofias de Nietzsche e Deleuze, há um que considero primordial e marca a aliança entre os dois pensadores: o pensamento como receptor da vida é tão-somente movimento. Movimentos e superfícies organizam um jogo do pensamento que Deleuze chama "o jogo ideal", e que pode ser comparado pelas suas especificidades com os esportes. Mas, se o pensamento, por seu movimento intempestivo, supera todos os limites, o esporte pode tão-só encontrar sua validade no próprio limite.

O surf é um jogo, como todo esporte, mas equipado de um aspecto lúdico que lhe é intrínseco. O surf pode tão-só se emancipar mediante duas condições: o surf é desenvolvimento da alegria pelo corpo, surfar é criar movimento. O que qualifica um bom surfista é, pois, a facilidade com a qual ele realiza seu movimento numa superfície de jogo pertencente a uma velocidade nômade do movimento e do tempo da onda.

No entanto, ele brinca de brincar com a onda excedendo os limites da própria onda e de suas regras não estabelecidas. Sua ação poderá superar a chegada da vaga, fazendo dos limites o lugar de transmutação da conformidade e da violência da calma da própria onda. Superar regras e limites é o que Deleuze nomeia O jogo ideal e que, pessoalmente, chamo um movimento louco para um jogo ideal.

Jogar para além do acaso, no acaso das próprias ondas, é uma arte, um conhecimento de seu corpo e do corpo da onda: gorda ou magra, ela tem um corpo, um corpo sem órgãos, uma leveza ativa, que é a própria leveza do ser em devir. Um limite vale tanto pelo que contém quanto pelo que rejeita, e marca a sedentariedade do surfista à espreita da boa onda. Se o surfista é o "sedentário do esporte", é parado que ele se movimenta mais: parar é ter o corpo em movimento, em articulações e namoro com a onda. Devir pássaro, ele voa e não precisa dos órgãos. Seu movimento líquido encontra na vaga seu elemento: ele é natureza com a natureza.

O jogo ideal é sem regras, sem vencedor e sem vencido. É a afirmação de todos os acasos. É o jogo do contra-senso, pois não põe um conjunto de objetos distintos, cujo agenciamento organizaria um sentido, sob o signo da boa estrela ou a boa sorte. Os objetos do jogo ideal são impessoais, não se organizam pela fórmula ganhadora que daria os dados, mas pelos lances de dados a cada vez.

O mar não tem gramática, apenas alfabeto órfão: sua única verdade é a efemeridade da verdade. Essa negação do jogo tradicional impõe a afirmação do acaso proscrito, sem aniquilar, porém, o jogo: eleva-o a sua plena potência do acaso. A onda é o acaso do surfista, como o tubo é para ele o experimento da imanência.

O surfista é a onda com a onda, e não onda sobre a onda; ele não existe apenas para aquilo que o tornará vencedor, mas se realiza afirmando o acaso; temos aqui certamente uma bela definição do ser, sempre em devir. É um puro sensitivo à escuta do meio no qual ele dança com seu corpo-onda para não "dançar" na vida. Escorregar é antes de tudo reduzir o esfregão, o caldo, a "vaca".

O surf é caracterizado pela superfície na qual se evolui, superfície que como o fora não é o exterior, mas a possibilidade de um fora/dentro, desejo maior do surfista. Ele fica à espreita do grande momento, num instante de duração não linear do tempo que tatua o corpo não com marcas visíveis, mas com um devir imperceptível que inebria a superfície de um dentro em núpcias com o fora. É o momento em que o surfista fura a onda, torna-se tubo com o tubo.

A inércia é aparência, é silêncio para não afugentar os devires. Trata-se de perfurar a onda e não de ficar sob a onda, o que é muito mais rico do ponto de vista do corpo projétil. O surfista se situa num experimento ou posição claramente contracorrente, sem jogo de palavras, mas que o auxilia em seu desejo de sensação plena.

Mormente, o surfista, ao contrário do nadador, dispõe de um material extra-humano: a prancha e a força motora extracorporal, isto é, a vaga. É claro que o trabalho, a técnica, o treino, a escuta do corpo, da onda e alianças desses dois elementos nutrem a sensação do surf-imagem-movimento, inserido numa filosofia vitalista, a imanência, uma vida.

Sentir a água passar é uma sublime sensação, mas é o corpo que passa na água, pois a água é imóvel e o corpo avança; isso é verdade para o surfista e para o nadador. César Augusto Cielo, atual campeão e recordista mundial dos 100 metros livres em Roma, é sem dúvida uma grande ilustração desse corpo em movimento.

Com Deleuze, pensar torna-se um esporte, entretanto, se o esportista aplica-o, desenvolve também uma idéia do jogo. Praticar um esporte é também jogar, é acolher um pensamento como transversalidade do esporte.

Deleuze, filósofo surfista da imanência? 

Experimentadores de um fora que é dobra e desdobra, os surfistas inspiraram Deleuze nos últimos anos de sua vida: "A desdobra não é o contrário da dobra, mas segue as dobras até outra dobra. Dobras de vento, de águas, do fogo e da terra, e dobras subterrâneas de filões na mina. Os desdobramentos sólidos da 'geografia humana' remetem, inicialmente, à ação do fogo e, depois, à ação das águas e dos ventos sobre a terra, um sistema de interações complexas".

"Todos os novos esportes - surf, windsurfe, asa delta - são do tipo: inserção numa onda preexistente. Já não é uma origem enquanto ponto de partida, mas uma maneira de colocação em órbita. O fundamental é como se fazer aceitar pelo movimento de uma grande onda, de uma coluna de ar ascendente, 'chegar entre' em vez de ser origem de um esforço".

Gibus de Soultrait, surfista, estudante de filosofia, procura Deleuze. Dessa relação, entre um filósofo e um surfista, nasce uma correspondência, virtual/real: "Quando se pensa no homem que viveu no final de sua vida isolado em seu apartamento em Paris, por causa de uma saúde deficiente, é de se admirar que ele tenha percebido com tanta clareza o eco de nossas ondas e nosso modo de se deixar tomar por elas surfando. A isso também, nós surfistas, não poderíamos ficar indiferentes. Essa abertura da filosofia, à nossa prática do oceano, por um de seus grandes mestres do século XX, era a prova de uma juventude e de uma acuidade com o exterior, raras. Foi então, que nos apressamos, entramos em contato com Deleuze, através de nosso editor... e, para nossa surpresa, à nossa simples solicitação de que nos honrasse com algumas linhas para nossa revista, ele respondeu não com uma recusa, mas com a vontade de conhecer o surf".

Aproveitando a ocasião, os surfistas o convidaram a participar da festa "A Noite do Escorrego", no célebre cinema Rex de Paris. "Trazer esse filósofo tão delicado e discreto para tamanha muvuca, encontro de escorregadores frenéticos, tinha algo de extraordinário, inédito".

O filósofo, enfermo, cansado foi, discretamente, à "Noite do escorrego", "La nuit de la glisse". Alguns dias depois, os surfistas receberam uma mensagem de Gilles Deleuze: "Obrigado por vossa delicadeza. Fui ao Rex, o público jovem despertou uma mistura de angústia (leve) e de jubilação, mas, sobretudo, os filmes me impressionaram muito. Há ali, evidentemente, uma combinação matéria-movimento muito nova. Mas também uma outra maneira de pensar. Estou certo de que a filosofia é concernida pelo surf".

O surf é a vida em vibração e sensações cósmicas. O oceano é o livro do surfista, sua prancha uma caneta, e cada onda um poema".

O Vertebral 
in http://overtebral.blogspot.com.br/2009/11/deleuze-surfista-da-imanencia.html

julho 05, 2008

Cultura e sexo

"Em latim, a palavra cultura remete primeiramente ao cultivo (agrícola). Em sentido figurado, ela remete ao cultivo do espírito. Por fim, ela remete ao culto no sentido de veneração. Cultivar implica esforço: preparar o terreno, selecionar as sementes, plantar e colher. Assim, se a cultura nada mais é do que a ação do homem sobre o homem, deve-se pensar essa ação como sendo um esforço (e mesmo uma crueldade) para produzir um homem capaz de esforçar-se.
Um homem incapaz de esforço é incapaz de levar adiante a tarefa da cultura. Em certo sentido, ele sequer é um homem. Totalmente absorto em suas funções digestivas e sexuais, ele irá tomar o campo social como um simples meio para sua satisfação privada. Não é por uma razão moral qualquer que se deve repreender o homem que trepa com suas próprias filhas. Deve-se repreendê-lo, isso sim, porque ao invés de fazer com elas um esforço de cultura capaz de produzir os homens (as mulheres) de amanhã, ele está fazendo delas um mero objeto de seu gozo privado.
Esse exemplo extremo mostra com muita clareza que o papel da cultura não é ensinar as crianças a ter prazer (algo que elas certamente aprenderão por sua própria conta), mas a esforçar-se. Ou então elas jamais aprenderão que o esforço pode proporcionar um gozo ainda mais intenso do que os prazeres digestivos e sexuais."


http://triagem.blogspot.com/2005/05/cultura-e-morte-9.html