outubro 20, 2012

Muitos daqueles que encaramos como doentes mentais são aqueles que estão mais próximos da sua autenticidade.

"As organizações têm formas de o convencer, e é sempre na base do suposto bem comum, de horizontes mais vastos ou, quando essa argumentação falha, na base da ameaça velada, mas o nosso náufrago não se deixa convencer facilmente: a sua bússula interior resiste à manipulação exterior, por mais elaborados que sejam os argumentos. E se não estiver em condições de não obedecer, adoece: dores de cabeça, úlceras, fobias, ataques de pânico, neuroses, estados depressivos.

Precisamente: muitos daqueles que encaramos como doentes são aqueles que estão mais próximos da sua autenticidade. E muitos daqueles que consideramos saudáveis, porque se adaptam sem questionar às normas e práticas das organizações, são incapazes de sentir a dor do desamparo, incapazes de sentir empatia e compaixão. A sua estrutura, digamos assim, formou-se a evitar essa dor muito precoce, identificando-se, para se defender da vulnerablidade do desamparo, com o vencedor. Como se a vida passasse a ser uma questão de ganhar ou perder, vencer ou falhar. Como se as pessoas não fossem por natureza frágeis e vulneráveis, contraditórias e paradoxais, mas apenas vencedores ou falhados, os “nossos” e “os outros”. É evidente que aqueles que se regem por esta lógica do poder irão sentir-se atraídos pelo poder e vemo-los em organizações, em lugares de gestão ou a gravitar à sua volta.

Pensem então por momentos nas implicações desta realidade: quem encontramos em lugares de poder, de exercer o poder, de decidir pelas nossas vidas, são muitos daqueles que se regem por normas e práticas alheias às nossas vidas, e, no limite, contra as nossas vidas. Dito assim, é assustador, não é? Agora tentemos transpor tudo isto para o que se está a passar no ocidente, sobretudo EUA e Europa. O que é que estes gestores do poder político e económico andaram a fazer? E o que é que insistem em continuar a fazer? A jogar com as nossas vidas, as vidas de pessoas reais, carne e ossos, sentimentos e emoções. Percursos e expectativas reais. Se as respeitassem diziam-lhes a verdade. Se as respeitassem reconheciam os erros e mudavam de rumo".

outubro 13, 2012

Conversas ecosóficas: a política obscena


Richard Drew/Associated Press


Há algo de obsceno na política que nos governa neste começo de século. Há, ao mesmo tempo, uma sensação de impunidade geral que alastra como uma gota de azeite. De onde virá esta obscenidade que suporta a impunidade e escandaliza os mais autênticos e puros?

Como funcionam a lei e todas as instituições surgidas com o grande feitiço que possui a sociedade ocidental desde há uns 2 ou 3 séculos? Como funciona nos bastidores? 

Pois, desiludam-se os que pensavam que estamos sendo governados por seres com ética. É um mundo obsceno. Que não vê. 

A obscenidade que permite que o putativo futuro presidente do FMI (Strauss-Kahn, se a memória não me trai), acusado de violação, fosse encarado com uma vítima. "Pobre dele, pensam alguns, apenas fez algo de normal em qualquer patriarca ocidental". O jogo da ambivalência, da mentira suave que entranha a visão mercantil do mundo. Será que este ex-director do FMI, mais tarde demonizado, se distingue no essencial dos seus colegas? Não, não é uma questão individual. Qualquer um, vivendo nestes meios institucionais, possivelmente não resistiria à atracção do uso impune do poder. É um grande afrodisíaco que, como o escritor Eduardo Galeano denunciou, permite que alguns milhares de pessoas, nas instituições e nas grandes corporações, controlem efectivamente a economia mundial sem se submeterem a eleições ou discussão democrática. É uma qualidade geral do vírus que Marx denominou, justamente ou não, capitalismo. E é o que sustenta, em última instância, toda esta encenação diária.

Uma pista que talvez ajude. É a própria matriz desta forma de produzir socialmente, forma mercantilizada avançada e imaterializada, que é, em si mesma, desde o seu nascimento por volta do século XVIII, obscena e cruel. A mercadoria foi o meu primeiro momento deste grande feitiço colectivo como muito bem viu o atento Karl Marx. A crueldade que nos leva a não ver a força de trabalho na mercadoria e no seu corolário virtual, o dinheiro e o capital. Uma forma de cegueira que o "capital" cria. Que a economia clássica aprofunda e legitima. Sem problemas pois são os que mais ganham com o "feitiço" colectivo. É, sem qualquer dúvida, uma cegueira muito bem ensinada e, pior, interiorizada que permite um sono sem culpas. As palavras do pensador Slavoj Zizek não poderiam ser mais adequadas para ver que o engano do FMI não é, na sua essência, um engano. É uma obscenidade.

Palavras do pensador Slavoj Zizek: "... o complemento obsceno como a outra face da lei [e de todas as instituições sociais, acrescento eu]. Se observarmos qualquer estrutura normativa, vemos que, para se manter, esta estrutura tem de depender de certas regras não escritas, tácitas, e que como tal devem permanecer; estas regras têm sempre uma dimensão obscena. O exemplo típico que dou é o da comunidade militar na qual, a um certo nível, há um conjunto de regras explícitas (hierarquia, modos de procedimento, disciplina, etc.), mas, para que estas regras explícitas funcionem necessitam de um complemento obsceno: quer dizer, todas as regras obscenas não escritas que mantêm uma comunidade militar - "graçolas sujas" sexistas, rituais sádicos, ritos de passagem, etc. - Todo aquele que fez o serviço militar sabe que a disciplina militar no seu conjunto se mantém em última instância graças a este reverso obsceno." Slavoj Zizek"Arriesgar lo Imposible. Conversaciones con Glyn Daly, Madrid, Ed. Trotta, 2006, p. 123 (trad. de Vitor Manuel Oliveira Jorge). 

Agradeço a Vítor Manuel Oliveira Jorge o acesso a este texto.

setembro 26, 2012

Portugal necessita urgentemente de uma outra troika




O post de Pedro Rodrigues Costa no Facebook de 25 de Setembro de 2012 : 

"Não vejo maneira de sairmos deste estado de coisas neste país. Os arautos que todos os dias desfilam na TV fazem uma campanha quase ao nível da propaganda salazarista para favorecer a via única de pensamento (os mass-media não estão nada isentos de culpa do estado actual do país). Desde o Camilo Lourenço até ao Bagão Félix, do Marcelo Rebelo de Sousa ao Marques Mendes, da RTP à SIC, da SiC Notícias à TVI24, são sempre os mesmos a vender receitas e a construir opiniões. Mais grave: são os mesmos, ou a mesma cartilha, que nos colocaram aqui, e agora ainda dão sugestões."


Caro Pedro Rodrigues Costa

É um prazer ler um texto inteligente e bem escrito. E que, ainda por cima, acerta no alvo. Em Portugal, estamos sendo governados por empregados de escritório burocratas robotizados. "Entregou-se ao gestor de números", seres que sofrem da grave enfermidade chamada quantofrenia, "o governo das pessoas e das culturas!"


Como diz um bloguista anónimo, F. Nogueira, "não sei se já se aperceberam, mas a quantofrenia está a enlouquecer-nos. Convirá talvez dizer, para aqueles que deixaram de estudar à saída da escola, seja primária, secundária ou superior, que “quantofrenia é uma visão unicamente quantitativa, na qual toda a concepção das qualidades desaparece”. O que importa são os números, não a realidade que representam. É uma moda importada, porque modas nossas temos poucas". http://sabordabeira.blogspot.com.es/2012/03/quantofrenia.html


Para caracterizar este Portugal estranho de começos do século XXI, a inspiração surgiu-me a partir de um texto do escritor e poeta Fernando Pessoa, escrito na segunda ou terceira década do século XX, sobre os vários tipos de portugueses

Refere, se bem me recordo, essencialmente três.

1 - Os obreiros, camponeses e parte da classe média que actualmente, tendo uma origem operária ou rural, se contenta com um trabalho imaterial, um emprego seguro, frustrante e sem ambições. Que sempre foram explorados e que têm, apesar de serem uma enorme maioria, horizontes limitados pelo seu silêncio e raiva improdutiva. 
 São, na sua maioria, indignados envergonhados e impotentes que apenas "ladram" e depois clicam no "gosto" do Facebook que critica o Coelho ou o Relvas mas não se dão à chatice de se misturarem com os manifestantes (selvagens para muitos deles). Os que, sem o saberem conscientemente, se submetem diariamente a doses infernais de intoxicação voluntária de TV e outras "drogas" legais (Portugal é o país campeão, na Europa, no consumo do anti-depressivo Prozac). A apatia e o respeito, um pouco ressentido, e a amabilidade postiça são a sua marca. Encontram-se arredados dos governos votando sob a influência das paixões ou de impulsos não racionalizados que os media e o marketing controlam. Ser ou votar num partido parece-se um pouco à fé que suporta a adesão clubística no futebol. Não admira, por isso, que, do ponto de vista da ciência política, sejamos o país mais previsível do mundo. E, de algum modo, somos sempre governados pelos mesmos, por um centrismo cada vez mais tecnocrata e acéfalo. Alguém me pode dizer qual a diferença real que separa um Sócrates de um Passos Coelho? Ou de um esforçado mas pouco convincente António José Martins Seguro. Na descrição clara do filósofo José Gil, os portugueses deste tipo, com medo da inveja real que caracteriza as sociedades patriarcais mediterrânicas, parece que têm medo de existir. Talvez o caso português, o caso de um país semi-periférico "estranho" como dizia o conhecido sociólogo português Boaventura Santos na década de 80, seja um osso mais duro de roer do que se imagina. 

2 - Os dirigentes e intelectuais estrangeirados que reproduzem as modas estrangeiras de forma acrítica e sem os adaptarem efectivamente à nossa idiossincrasia. Inspirado no filósofo do Maio de 68 em França, G. Deleuze, diria que, nesta forma de estar no mundo, há algo de "frénico" que receia a sua diferença e o seu eu profundo. São, usando como mote a figura de Cavaco Silva, rapazinhos bem comportados e exemplares procurando sempre a aprovação do "pai" "Europa" ou, agora, a TROIKA. Exemplos dados por Fernando Pessoa: desde o Marquês de Pombal com o seu absolutismo radical, passando pelos liberais e românticos do século XIX, aos republicanos da maçonaria de 1910 que ainda dominam muito dos políticos do centro, aos comunistas ortodoxos inspirados numa utopia que se transformou num pesadelo e, por fim, aos cínicos do neo-liberalismo de Cavaco Silva, Sócrates (em parte) e o nosso actual primeiro ministro Passos Coelho. Socialmente este tipo constitui a base de recrutamento para deputado, ministro e líder de partidos políticos maioritários. "Grande parte das classes médias superiores, certa parte do povo e quase toda a classe dirigente" (usando as palavras de Fernando Pessoa). O problema não está em ser estrangeirado. Está, segundo Pessoa, em ser um estrangeirado provinciano que quando fala com um inglês, francês ou alemão parece ter vergonha de dizer que é português.

E, por fim, 3 - os sonhadores realistas e pragmáticos que, embora sendo críticos do provincianismo congénito de muitos portugueses, vêem os ditos "defeitos" como potencialidades, como diferenças que se podem, se bem administradas, potenciar: a nossa preguiça, o nosso sentido de comunidade, a nossa capacidade de aventura e de improvisação, etc. Consiste em sublinhar que aquilo que parece um veneno, num contexto de crise, pode ser o remédio, o phármakon de que falavam os gregos antigos.    
 Sonhadores que inspiram, de algum modo, os novos líderes surgidos dos movimentos sociais das redes sociais como o Facebook. São os seres, muitos ainda jovens (e não apenas na idade cronológica), que, segundo Pessoa, continuam, maioritariamente "navegando no novo mar da" internet animados pelo sonho dos nossos primeiros investigadores que criaram, segundo o filósofo do séc. XVII Francis Bacon e todos os historiadores da ciência, as bases da ciência moderna como utopia de conhecimento e interculturalidade. Que estão na base de utopias como as concretizadas na América Latina por alguns dos nossos intelectuais (ver o caso notável do nosso Padre António Vieira, defensor dos indígenas e um ecologista avant la lettre).
 Embora fossem humanistas e defensores de uma lógica de diálogo e argumentação próxima das ciências sociais e da literatura, eram também homens de acção que transformaram a utopia em real. Que assumiram, como defende o filósofo Gilles Deleuze, que tudo é virtual, mesmo a realidade mais objectiva, tudo é sonho que se activa pela acção séria e comunitária. Usando a linguagem pessoana: "Deus", no sentido galáctico e panteísta, "quer, o homem sonha e a obra nasce". 
 O Sonhador da era digital será, em grande medida, uma mescla de um Agostinho da Silva utópico e imaginativo com um jovem animador político hacker pragmático da internet. Na verdade, a crise do sistema nomeadamente o escolar e o desemprego estão a deitar cá para fora milhares de potenciais sonhadores realistas que, com lucidez, devem evitar cair nos erros dos seus pais. Podem, de certa forma, como dizia Pessoa, fazer cumprir o sonho dos nossos antepassados valentes e sábios que deram novos mundos ao mundo, uma nova cosmovisão.

Recriando o diagnóstico de F. Pessoa, Portugal necessita urgentemente de uma outra troika. 

A troika, a servir de guia a um governo de sonhadores pragmáticos, teria três "medicamentos" para usar de forma incisiva e com energia: imaginação controladaactos emocionais políticos com um fundo ético (mas nunca moralista) e capacidade de improvisar organizadamente.

1 - É necessária e urgente uma imaginação controlada que não recusa de forma infantil, no seu todo, a economia de mercado. Mas que, ao mesmo tempo,  não assume os seus dogmas e a sua crueldade. Muitos dos livros recentes na área da economia exprimem um sintoma desta transformação que mostra os limites do modelo "neo-liberal" de desenvolvimento. Alternativas emergem por todos os lados em micro-experiências que poderão, pouco a pouco, ser alargadas a outras áreas da actividade humana. 
 A esquerda mais radical deveria abandonar o seu complexo de édipo infantil assumindo-se como uma alternativa clara de governo sem se ficar pelas margens folclóricas do capitalismo. Isso não quer dizer que se devam abandonar esses temas. Inspirados na sabedoria popular, no tão desprezado senso comum como dizia o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, deve-se ter a noção de que um radicalismo demasiado acentuado pode matar o doente com o seu remédio.


2 - Actos políticos em que a emoção, a compaixão no seu sentido nobre serve de guia sem se deixar dominar por paixões e fanatismos perigosos com conotação de "esquerda" ou "direita". Assumir que não há decisões apenas racionais e que a emoção deve assumir uma forma essencialmente ética mas nunca moral seguindo assim o que nos dizia há séculos atrás o grande filósofo ateu, filho de portugueses, Bento de Espinosa. Compaixão autêntica pelos desempregados reais, pelos idosos que vivem com pensões no limite da vida; casais jovens com esgotamentos psicológicos e crianças subnutridas, ter consciência das agressões no ambiente, e na nossa psique, provocadas pelo modelo mercantil de vida, respeitar a natureza tendo uma consciência cada vez mais planetária como era o caso de alguns dos nossos primeiros navegadores etc, etc. Esta consciência deve constituir o fundo obrigatório das decisões políticas mais importantes obrigando os políticos a justificar-se em público. É claro que esta utopia realista necessita de  novos media não subjugados e jamais acéfalos. Imitar um pouco a sensibilidade emergente de um político como Lula da Silva com medidas como o Banco Alimentar, Marina Silva (candidata ecologista nas presidenciais do Brasil com 20% dos votos) e muitos outros políticos não "redondos" como diz justamente o escritor uruguaio Eduardo Galeano (ver vídeo no final). 
 E, finalmente,

3 - usar a nossa conhecida capacidade de improvisação (muitas vezes denegrida de forma masoquista pelos estrangeirados de esquerda e direita) para a potenciar sem nos deixarmos levar pelo facilitismo. Improvisação organizada ou o que algumas teorias organizacionais definem, de forma negativa, como uma "anarquia organizada" e negociada mas com pontos fortes de decisão de forma a evitar a negociação instável. Desburocratizar ainda mais a sociedade (um dos êxitos dos governos Sócrates) valorizando as lógicas de rizoma, descentradas como as redes na net, na inovação social. Agilizando ainda mais as relações da sociedade civil com a função pública e o Estado. Mas não caindo na lógica brutal do "menos estado" a todo o custo. Tentar consensos mas de forma assertiva e incisiva negociando duramente com os interesses da banca e das organizações empresariais. E, acima de tudo, potenciar os recursos de saber das Universidades e instituições emergentes em que a formação e a investigação se assumem de forma activa e participada. Recusar a loucura da tecnocracia cega inspirada nas obras da construção civil e na euforia informática. Ter em conta que, por exemplo, Portugal está na vanguarda nas inovações comunitárias auto-sustentáveis induzidas em grande parte por jovens europeus imigrantes descontentes com o modelo de vida neo-liberal da Europa Central. 


É necessário e urgente, para conseguirmos sobreviver como entidade independente e saudável, dar lugar a esses sonhadores-improvisadores realistas (verdadeiros inovadores sociais gestalticos, usando a linguagem empresarial da economia) com a sua "medicina". Talvez seja a hora de retirar o governo desta comunidade territorial chamada Portugal aos "estrangeirados" que sempre se venderam às modas europeias ou norte-americanas baseadas na crença no racional e na quantidade, ou seja, o paradigma da economia clássica. Necessitamos de sonhadores pragmáticos como de água para a boca. 


Talvez seja a hora, glosando Fernando Pessoa, de Portugal se cumprir como utopia planetária.



Um abraço

José Pinheiro Neves


Inspirado essencialmente na obra de Fernando Pessoa e do filósofo francês Gilles Deleuze. O livro de Fernando Pessoa que me inspirou neste manifesto foi: Sobre Portugal. Introdução ao problema nacional, Lisboa, Ática, 1979.

Também me baseei em muitas leituras e diálogos no Facebook e em dezenas de blogues, quase todos de anónimos, que por vezes consulto. Finalmente, destaco, sem qualquer ordem de mérito e esquecendo infelizmente muitos, as conversas com os sociólogos Pedro Rodrigues Costa e Esser Jorge Silva, alguns livros do Padre António Vieira, do filósofo do Maio de 68, Gilles Deleuze, do escritor uruguaio Eduardo Galeano, do filósofo José Gil, do sociólogo e comunicólogo Moisés de Lemos Martins, do sociólogo Boaventura de Sousa Santos, do pensador das novas formas de ser na Internet, Pedro Andrade, do referido Pedro Rodrigues Costa, de Esser Jorge Silva e naturalmente textos da minha autoria dispersos por livros e artigos.



O post de Pedro Costa no Facebook de 25 de Setembro de 2012 : 

"Não vejo maneira de sairmos deste estado de coisas neste país. Os arautos que todos os dias desfilam na TV fazem uma campanha quase ao nível da propaganda salazarista para favorecer a via única de pensamento (os mass-media não estão nada isentos de culpa do estado actual do país). Desde o Camilo Lourenço até ao Bagão Félix, do Marcelo Rebelo de Sousa ao Marques Mendes, da RTP à SIC, da SiC Notícia
s à TVI24, são sempre os mesmos a vender receitas e a construir opiniões. Mais grave: são os mesmos, ou a mesma cartilha, que nos colocaram aqui, e agora ainda dão sugestões. A ideia é sempre a mesma: «andamos anos a gastar mais do que o que tínhamos». Por outras palavras, isto quer dizer que temos que equilibrar a balança comercial. Mas agora questionemos: quem é que mais incentivou o consumo desenfreado? Resposta: governos e banca! Quem é que mais gastou acima das posses? Governo e Banca! Quem é chamado para pagar estes erros político-estratégicos? O povo português mais desfavorecido (classes baixas e médias)! O que é que acontece a quem cometeu estes erros e esta gestão danosa espalhada pelo país? Nada! Pelo contrário, ainda tem o prémio de ter lugar cativo nas TVS a sugerir soluções. Mas porque é que estamos aqui? Fundamentalmente, por uma só razão que tudo absorve: entregou-se ao gestor de números a gestão de pessoas e de culturas! Tudo o resto, é consequência da sobreposição do número face ao resto do universo. Onde está uma prova para esta afirmação? Olhem apenas para a Finlândia e para a Suécia, e contem as diferenças na gestão e nas políticas dos últimos 30 anos. Essas tiveram um único objectivo: melhorar a vida das PESSOAS, e não dos números. Conclusão: são hoje 2 dos países mais competitivos do mundo, com salários médios a rondar os 2500 euros e com indicadores de bem-estar geral no topo. Tenho poucas certezas, mas esta é garantida: se é para continuar com soluções orientadas para o cumprimento de números, teremos tudo menos solução à vista. E certamente mais sábados, muito mais violentos, do que o do dia 15!"

agosto 13, 2012

"Pareja" de Monserrat Gudiol







Na imagem, há uma dureza no olhar da mulher que tem, ao mesmo tempo, algo de estranho e algo de "determinado", intenso. Como se houvesse um ponto claro, uma imagem-sentimento que ela transporta e que a anima. O ponto central que anima a dança. Poderia supor-se que talvez fosse raiva ou, porventura, angústia revoltada. Nada disso. É uma força determinada. Ao mesmo tempo, o homem caracteriza-se por uma espécie de carinho. Talvez no sentido anglosaxónico do "take care". Tomar conta. Ter cuidado, carinho e desvelo. Como se ela fosse ao mesmo tempo, uma criança e um ser com milhares de anos.

jpn

agosto 04, 2012

“Reagregando o social: uma introdução à Teoria do Ator-Rede”, do antropólogo francês Bruno Latour


EDUFBA lança o livro “Reagregando o social: uma introdução à Teoria do Ator-Rede”, do antropólogo francês Bruno Latour, em Salvador (06/08/2012)


Em parceria com a Editora da Universidade do Sagrado Coração (EDUSC) e com o Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporânea (PÓSCOM/UFBA), a Editora da Universidade Federal da Bahia (EDUFBA) apresenta a primeira tradução em português do livro Reassembling the Social, de Bruno Latour, com o título de Reagregando o social: uma introdução à Teoria do Ator-Rede. O lançamento integra a programação do Simpósio Internacional A Vida Secreta dos Objetos e acontece nesta segunda-feira, 6, às 19h, no ICBA, em Salvador.

O que vem a ser uma sociedade, o que significa a palavra social? De que modo o rumo de uma sociedade pode ser alterado? As respostas para estas e outras questões são encontradas em Reagregando o social. Neste livro, o antropólogo francês Bruno Latour apresenta a Sociologia de maneira menos antropocêntrica, trazendo os não-humanos ao centro do debate sociológico. O autor acredita que para entender ainda mais o humano é preciso partir da ideia de que os objetos são dotados de agência, ou seja, têm poder de ação.

Além do lançamento de Reagregando o social e de conferência com o autor, o Simpósio conta com uma série de diálogos com outros pesquisadores, nacionais e internacionais, como Graham Harman, Richard Grusin, Siegfried Zielinski, André Lemos, Erick Felinto, Adalberto Müller e Vinicius Andrade Pereira. O objetivo é unir conhecimentos de diversas áreas de estudo, como Comunicação Social, Literatura e Filosofia, promovendo a discussão de temas, teorias e perspectivas metodológicas da pesquisa mundial. 


julho 04, 2012

Ecosofia ou ecologia profunda








O QUE É A ECOSOFIA OU ECOLOGIA PROFUNDA?    

     "A "Ecosofia" é a procura duma forma de vida menos antropocêntrica nas relações do homem com o meio ambiente incluindo o ambiente digital, com a sua mente e com os outros humanos. Trata-se de um campo transdisciplinar de conhecimento e experimentação que integra tanto as ciências humanas, naturais e económicas como a estética e as formas comuns e, muitas vezes, marginalizadas do saber." 

[José Pinheiro Neves]



     O conceito surge em 1972 numa conferência do pensador ecologista norueguês Arne Naess, sendo desenvolvido fundamentalmente por três pensadores: o referido Arne Naess, pai da ecologia profunda, o pós-marxista e psiquiatra Félix Guattari (não esquecendo a contribuição fundamental de Gilles Deleuze) e, mais recentemente, o sociólogo francês Michel Maffesoli.

     Arno Naess definiu a ecosofia da seguinte maneira: "Por Ecosofia eu quero dizer uma filosofia de harmonia ou equilíbrio ecológico. Filosofia como um tipo de sofia ou sabedoria é abertamente normativa, contém normas, regras, postulados, anúncio de prioridades e hipóteses relacionados à situação do universo. Sabedoria é sabedoria política, prescrição, não apenas descrição científica e predição. Os detalhes de uma ecosofia conterão muitas variações devidas a diferenças significativas relacionadas não apenas aos ‘fatos’ da poluição, dos recursos naturais, da população, etc. mas também a prioridades de valores".
in Vários, The Deep Ecology Movement: An Introductory Anthology, Berkeley, North Atlantic Publishers, 1995, p. 52.


     Num livro recente, Michel Maffesoli define a ecosofia como sendo uma forma de  "compreender a metamorfose em curso. Ela que nos faz passar de progressismo (que foi vigoroso, que deu bons resultados, mas que se torna um pouco doentio) para uma progressividade que reinveste em ‘arcaísmos’: povo, território, natureza, sentimentos, humores… que pensávamos ter deixado para trás". 
in Michel Maffesoli, Saturação, São Paulo, Iluminuras, 2010.


     As três ecologias de Félix Guattari: ambiental, social e mental

 "O princípio particular à ecologia [ecosofia] ambiental é o de que tudo é possível tanto as piores catástrofes quanto as evoluções flexíveis. Cada vez mais, os equilíbrios naturais dependerão das intervenções humanas. Um tempo vira em que será necessário empreender imensos programas para regular as relações entre o oxigênio, o ozônio e o gás carbônico na atmosfera terrestre.
Vários, The Deep Ecology Movement: An Introductory Anthology, Berkeley, North Atlantic Publishers, 1995,  p. 52.

 Segundo Félix Guattari, "a ecosofia social consistira em desenvolver praticas especificas que tendam a modificar e a reinventar maneiras de ser no seio do casal, da familia, do contexto urbano, do trabalho, etc."
in Félix Guattari, As Três Ecologias, Campinas, Brasil, Papirus,1990.

 "A ecosofia mental, por sua vez, será levada a reinventar a relação do sujeito com o corpo, com o fantasma, com o tempo que passa, com os ‘mistérios’ da vida e da morte. Ela será levada a procurar antídotos para a uniformização midiática e telemática, o conformismo das modas, as manipulações da opinião pela publicidade, pelas sondagens etc."
Vários, The Deep Ecology Movement: An Introductory Anthology, Berkeley, North Atlantic Publishers, 1995, p. 52.
    
Definição de ecosofia

 Segundo André Bürger,  é a busca duma dimensão ecossistêmica e não mais antropocêntrica das relações do homem com o meio ambiente, com a sua mente e com os outros humanos. Trata-se de um campo de conhecimento que integra as ciências humanas, naturais e económicas. 

     Definição inspirada em André Bürger, "Ecosofia, redes digitais sustentáveis e os efeitos da tecnologia no homem moderno", Disponível em: http://envolverde.com.br/ambiente/artigo/ecosofia-redes-digitais-sustentaveis-e-os-efeitos-da-tecnologia-no-homem-moderno/ [acesso em 15/05/2011]- Publicado originalmente no Nós da Comunicação e retirado do site Plurale.


     Inspirado no trabalho de Félix Guattari, Gilles Deleuze e Michel Maffesoli, sugiro uma definição mais ampla e abrangente: 

     "A "Ecosofia" é a procura duma forma de vida menos antropocêntrica nas relações do homem com o meio ambiente incluindo o ambiente digital, com a sua mente e com os outros humanos. Trata-se de um campo transdisciplinar de conhecimento e experimentação que integra tanto as ciências humanas, naturais e económicas como a estética e as formas comuns e, muitas vezes, marginalizadas do saber." 

José Pinheiro Neves



Texto inspirado (nomeadamente as citações) em:



dezembro 03, 2009

Deleuze como "surfista"

O "surf" como inspiração do filósofo francês Gilles Deleuze


"Afora os aspectos que reúnem em um só platô as filosofias de Nietzsche e Deleuze, há um que considero primordial e marca a aliança entre os dois pensadores: o pensamento como receptor da vida é tão-somente movimento. Movimentos e superfícies organizam um jogo do pensamento que Deleuze chama "o jogo ideal", e que pode ser comparado pelas suas especificidades com os esportes. Mas, se o pensamento, por seu movimento intempestivo, supera todos os limites, o esporte pode tão-só encontrar sua validade no próprio limite.

O surf é um jogo, como todo esporte, mas equipado de um aspecto lúdico que lhe é intrínseco. O surf pode tão-só se emancipar mediante duas condições: o surf é desenvolvimento da alegria pelo corpo, surfar é criar movimento. O que qualifica um bom surfista é, pois, a facilidade com a qual ele realiza seu movimento numa superfície de jogo pertencente a uma velocidade nômade do movimento e do tempo da onda.

No entanto, ele brinca de brincar com a onda excedendo os limites da própria onda e de suas regras não estabelecidas. Sua ação poderá superar a chegada da vaga, fazendo dos limites o lugar de transmutação da conformidade e da violência da calma da própria onda. Superar regras e limites é o que Deleuze nomeia O jogo ideal e que, pessoalmente, chamo um movimento louco para um jogo ideal.

Jogar para além do acaso, no acaso das próprias ondas, é uma arte, um conhecimento de seu corpo e do corpo da onda: gorda ou magra, ela tem um corpo, um corpo sem órgãos, uma leveza ativa, que é a própria leveza do ser em devir. Um limite vale tanto pelo que contém quanto pelo que rejeita, e marca a sedentariedade do surfista à espreita da boa onda. Se o surfista é o "sedentário do esporte", é parado que ele se movimenta mais: parar é ter o corpo em movimento, em articulações e namoro com a onda. Devir pássaro, ele voa e não precisa dos órgãos. Seu movimento líquido encontra na vaga seu elemento: ele é natureza com a natureza.

O jogo ideal é sem regras, sem vencedor e sem vencido. É a afirmação de todos os acasos. É o jogo do contra-senso, pois não põe um conjunto de objetos distintos, cujo agenciamento organizaria um sentido, sob o signo da boa estrela ou a boa sorte. Os objetos do jogo ideal são impessoais, não se organizam pela fórmula ganhadora que daria os dados, mas pelos lances de dados a cada vez.

O mar não tem gramática, apenas alfabeto órfão: sua única verdade é a efemeridade da verdade. Essa negação do jogo tradicional impõe a afirmação do acaso proscrito, sem aniquilar, porém, o jogo: eleva-o a sua plena potência do acaso. A onda é o acaso do surfista, como o tubo é para ele o experimento da imanência.

O surfista é a onda com a onda, e não onda sobre a onda; ele não existe apenas para aquilo que o tornará vencedor, mas se realiza afirmando o acaso; temos aqui certamente uma bela definição do ser, sempre em devir. É um puro sensitivo à escuta do meio no qual ele dança com seu corpo-onda para não "dançar" na vida. Escorregar é antes de tudo reduzir o esfregão, o caldo, a "vaca".

O surf é caracterizado pela superfície na qual se evolui, superfície que como o fora não é o exterior, mas a possibilidade de um fora/dentro, desejo maior do surfista. Ele fica à espreita do grande momento, num instante de duração não linear do tempo que tatua o corpo não com marcas visíveis, mas com um devir imperceptível que inebria a superfície de um dentro em núpcias com o fora. É o momento em que o surfista fura a onda, torna-se tubo com o tubo.

A inércia é aparência, é silêncio para não afugentar os devires. Trata-se de perfurar a onda e não de ficar sob a onda, o que é muito mais rico do ponto de vista do corpo projétil. O surfista se situa num experimento ou posição claramente contracorrente, sem jogo de palavras, mas que o auxilia em seu desejo de sensação plena.

Mormente, o surfista, ao contrário do nadador, dispõe de um material extra-humano: a prancha e a força motora extracorporal, isto é, a vaga. É claro que o trabalho, a técnica, o treino, a escuta do corpo, da onda e alianças desses dois elementos nutrem a sensação do surf-imagem-movimento, inserido numa filosofia vitalista, a imanência, uma vida.

Sentir a água passar é uma sublime sensação, mas é o corpo que passa na água, pois a água é imóvel e o corpo avança; isso é verdade para o surfista e para o nadador. César Augusto Cielo, atual campeão e recordista mundial dos 100 metros livres em Roma, é sem dúvida uma grande ilustração desse corpo em movimento.

Com Deleuze, pensar torna-se um esporte, entretanto, se o esportista aplica-o, desenvolve também uma idéia do jogo. Praticar um esporte é também jogar, é acolher um pensamento como transversalidade do esporte.

Deleuze, filósofo surfista da imanência? 

Experimentadores de um fora que é dobra e desdobra, os surfistas inspiraram Deleuze nos últimos anos de sua vida: "A desdobra não é o contrário da dobra, mas segue as dobras até outra dobra. Dobras de vento, de águas, do fogo e da terra, e dobras subterrâneas de filões na mina. Os desdobramentos sólidos da 'geografia humana' remetem, inicialmente, à ação do fogo e, depois, à ação das águas e dos ventos sobre a terra, um sistema de interações complexas".

"Todos os novos esportes - surf, windsurfe, asa delta - são do tipo: inserção numa onda preexistente. Já não é uma origem enquanto ponto de partida, mas uma maneira de colocação em órbita. O fundamental é como se fazer aceitar pelo movimento de uma grande onda, de uma coluna de ar ascendente, 'chegar entre' em vez de ser origem de um esforço".

Gibus de Soultrait, surfista, estudante de filosofia, procura Deleuze. Dessa relação, entre um filósofo e um surfista, nasce uma correspondência, virtual/real: "Quando se pensa no homem que viveu no final de sua vida isolado em seu apartamento em Paris, por causa de uma saúde deficiente, é de se admirar que ele tenha percebido com tanta clareza o eco de nossas ondas e nosso modo de se deixar tomar por elas surfando. A isso também, nós surfistas, não poderíamos ficar indiferentes. Essa abertura da filosofia, à nossa prática do oceano, por um de seus grandes mestres do século XX, era a prova de uma juventude e de uma acuidade com o exterior, raras. Foi então, que nos apressamos, entramos em contato com Deleuze, através de nosso editor... e, para nossa surpresa, à nossa simples solicitação de que nos honrasse com algumas linhas para nossa revista, ele respondeu não com uma recusa, mas com a vontade de conhecer o surf".

Aproveitando a ocasião, os surfistas o convidaram a participar da festa "A Noite do Escorrego", no célebre cinema Rex de Paris. "Trazer esse filósofo tão delicado e discreto para tamanha muvuca, encontro de escorregadores frenéticos, tinha algo de extraordinário, inédito".

O filósofo, enfermo, cansado foi, discretamente, à "Noite do escorrego", "La nuit de la glisse". Alguns dias depois, os surfistas receberam uma mensagem de Gilles Deleuze: "Obrigado por vossa delicadeza. Fui ao Rex, o público jovem despertou uma mistura de angústia (leve) e de jubilação, mas, sobretudo, os filmes me impressionaram muito. Há ali, evidentemente, uma combinação matéria-movimento muito nova. Mas também uma outra maneira de pensar. Estou certo de que a filosofia é concernida pelo surf".

O surf é a vida em vibração e sensações cósmicas. O oceano é o livro do surfista, sua prancha uma caneta, e cada onda um poema".

O Vertebral 
in http://overtebral.blogspot.com.br/2009/11/deleuze-surfista-da-imanencia.html

julho 05, 2008

Cultura e sexo

"Em latim, a palavra cultura remete primeiramente ao cultivo (agrícola). Em sentido figurado, ela remete ao cultivo do espírito. Por fim, ela remete ao culto no sentido de veneração. Cultivar implica esforço: preparar o terreno, selecionar as sementes, plantar e colher. Assim, se a cultura nada mais é do que a ação do homem sobre o homem, deve-se pensar essa ação como sendo um esforço (e mesmo uma crueldade) para produzir um homem capaz de esforçar-se.
Um homem incapaz de esforço é incapaz de levar adiante a tarefa da cultura. Em certo sentido, ele sequer é um homem. Totalmente absorto em suas funções digestivas e sexuais, ele irá tomar o campo social como um simples meio para sua satisfação privada. Não é por uma razão moral qualquer que se deve repreender o homem que trepa com suas próprias filhas. Deve-se repreendê-lo, isso sim, porque ao invés de fazer com elas um esforço de cultura capaz de produzir os homens (as mulheres) de amanhã, ele está fazendo delas um mero objeto de seu gozo privado.
Esse exemplo extremo mostra com muita clareza que o papel da cultura não é ensinar as crianças a ter prazer (algo que elas certamente aprenderão por sua própria conta), mas a esforçar-se. Ou então elas jamais aprenderão que o esforço pode proporcionar um gozo ainda mais intenso do que os prazeres digestivos e sexuais."


http://triagem.blogspot.com/2005/05/cultura-e-morte-9.html

maio 05, 2008

Henri Bergson

"O bergsonismo é uma dessas raras filosofias nas quais a teoria da pesquisa se confunde com a própria pesquisa, excluindo essa espécie de desdobramento reflexivo que engendra as gnoseologias, as propedêuticas e os métodos. Do pensamento bergsoniano pode-se repetir, em certo sentido, o que foi dito do spinozismo: que não existe para ele método substancialmente e conscientemente distinto da meditação sobre as coisas, que o método, cuja marcha geral ela de algum modo desenha, é antes imanente a essa meditação. Bergson insistia outrora com bastante inquietação sobre a vaidade dos fantasmas ideológicos que se insinuam perpetuamente entre o pensamento e os fatos e mediatizam o conhecimento. A filosofia da vida esposaria a curva sinuosa do real sem que nenhum método transcendente viesse relaxar essa estreita aderência; mais ainda, seu "método" seria a própria linha do movimento que conduz o pensamento na espessura das coisas."Vladimir Jankélévitch: Henri Bergson, Paris, PUF, 1959, p. 5.

agosto 02, 2007

Espaço-temporalidade, Trabalho Imaterial e Resistência: reflexões sobre o cotidiano do trabalho contemporâneo

"Conforme Pelbart (2003, p.97),o ideal hoje é ser o mais enxuto possível, o mais leve possível, ter o máximo de mobilidade, o máximo de conexões úteis, o máximo de informações, o máximo de navegabilidade, a fim de poder antenar para os projetos mais pertinentes com duração finita, para o qual se mobilizam as pessoas certas, e ao cabo do qual estão todas novamente disponíveis para outros convites, outras propostas, outras conexões.


O modo conexionista do capitalismo traz como conseqüências a finitude das fronteiras, tal como a modernidade líquida descrita por Bauman (2001), proporcionando “a liberação do capital, de sua fronteira antes restrita, estanque, pesada, mecânica, podendo agora, no ciclo produtivo mobilizar o homem por inteiro, sua vitalidade mais própria e visceral, sua ‘alma’” (PELBART, 2003, p.99).


[...]



Atravessado pela velocidade e pela mobilidade, o trabalho imaterial demanda do trabalhador da sociedade da informação um esquecimento do que passou. Não mais deve ter no passado o apego às referências para a construção do futuro.

O trabalhador, em contexto de trabalho imaterial deve desapegar-se, desprender-se da concepção de trabalho duramente construída na lógica taylorista/fordista e assumir as novas demandas, deveria derreter os sólidos, como lembra Bauman (2001).

No entanto, esse “derreter de sólidos” antes de significar a liberdade do sujeito, dentro de uma nova ordem, significa uma nova amarra, um novo formato, um novo molde: nenhum molde foi quebrado sem que fosse substituído por outro; as pessoas foram libertadas de suas velhas gaiolas apenas para serem admoestadas e censuradas caso não conseguissem se realocar, através de seus próprios esforços dedicados, contínuos e verdadeiramente infindáveis, nos nichos pré-fabricados da nova ordem (BAUMAN, 2001, p.13)"

in Vânia Gisele Bessi,

"Espaço-temporalidade, Trabalho Imaterial e Resistência: reflexões sobre o cotidiano do trabalho contemporâneo"

http://pascal.iseg.utl.pt/~socius/publicacoes/wp/wp200701.pdf

junho 20, 2007

Um dia

Um dia

Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.


O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.


Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.



Sophia de Mello Breyner Andresen

novembro 25, 2006

"Vida nua, vida besta, uma vida" por Peter Pál Pelbart

"Ao reduzir a existência ao seu mínimo biológico, o biopoder contemporâneo nos transforma em meros sobreviventes.

O contexto contemporâneo se caracteriza por uma nova relação entre o poder e a vida. Por um lado, uma tendência que poderia ser formulada como segue: o poder tomou de assalto a vida. Isto é, ele penetrou todas as esferas da existência, e as mobilizou inteiramente, pondo-as para trabalhar. Desde os gens, o corpo, a afetividade, o psiquismo, até a inteligência, a imaginação, a criatividade, tudo isso foi violado, invadido, colonizado, quando não diretamente expropriado pelos poderes. [...]


O corpo

Tomemos a título de exemplo o superinvestimento do corpo que caracteriza nossa atualidade.Desde algumas décadas, o foco do sujeito deslocou-se da intimidade psíquica para o próprio corpo. Hoje, o eu é o corpo. A subjetividade foi reduzida ao corpo, a sua aparência, a sua imagem, a sua performance, a sua saúde,a sua longevidade. O predomínio da dimensão corporal na constituição identitária permite falar numa "bioidentidade". É verdade que já não estamos diante de um corpo docilizado pelas instituições disciplinares, como há cem anos atrás,corpo estriado pela máquina panóptica, o corpo da fábrica, o corpo do exército,o corpo da escola. Agora cada um se submete voluntariamente a uma ascese,científica e estética a um só tempo. É o que Francisco Ortega chama de bioascese (7). Por um lado, trata-se de adequar o corpo às normas científicas da saúde, longevidade, equilíbrio, por outro, trata-se de adequar o corpo às normas da cultura do espetáculo, conforme o modelo das celebridades.

Como o diz Jurandir Freire Costa, a obsessão pela perfectibilidade física, com as infinitas possibilidades de transformação anunciadas pelas próteses genéticas,químicas, eletrônicas ou mecânicas, essa compulsão do eu para causar o desejo do outro por si, mediante a idealização da imagem corporal, mesmo às custas do bem-estar, com as mutilações que o comprometem, substituem finalmente a satisfação erótica que prometem pela mortificação auto-imposta8. O fato é que abraçamos voluntariamente a tirania da corporeidade perfeita, em nome de um gozo sensorial cuja imediaticidade torna ainda mais surpreendente o seu custo em sofrimento.

A bioascese é um cuidado de si, mas, à diferença dos antigos, cujo cuidado de si visava a bela vida, e que Foucault chamou de estética da existência, o nosso cuidado visa o próprio corpo, sua longevidade,saúde, beleza, boa forma, felicidade científica e estética, ou o que Deleuze chamaria a "gorda saúde dominante". Não hesitamos em qualificá-lo, mesmo nas condições moduláveis da coerção contemporânea, de um corpo fascista - diantedo modelo inalcançável, boa parcela da população é jogada numa condição de inferioridade sub-humana. Que, ademais, o corpo tenha se tornado também um pacote de informações(9), um reservatório genético, um dividual estatístico,com o qual somos lançados ao domínio da biossociabilidade ("faço parte do grupo dos hipertensos, dos soropositivos" etc.), isto só vem fortalecer os riscos da eugenia. Estamos às voltas, em todo caso, com o registro da vida biologizada… Reduzidos ao mero corpo, do corpo excitável ao corpo manipulável, do corpo espetáculo ao corpo automodulável, é o domínio da vida nua. Continuamos no âmbito da sobrevida, da produção maciça de "sobreviventes", no sentido amplo do termo."


Sobrevivencialismo

1 - No rastro de Foucault,Deleuze, Negri, Lazzarato e outros, tal mapeamento foi tentado em “Vida Capital”,São Paulo, Iluminuras, 2003.
2 - G. Agamben, "Ce Qui Reste d´Auschwitz", Paris Payot & Rivages, 1999.
3 - J. Améry, "Par Delà le Crime et le Chatiment", Arles, Actes Sud, 1995
4 - P. Levi, “É Isto um Homem?”, Rio de Janeiro, Rocco, 2000.
5 - M. Foucault, "La Volonté de Savoir", Paris, Gallimard, 1976, p 179.
6 - G. Agamben, "Ce Qui Reste d´Auschwitz", op. cit, p. 205.
7- Francisco Ortega, "Da Ascese à Bioascese, Ou do Corpo Submetido à Submissãodo Corpo", in “Imagens de Foucault e Deleuze”, Rio de Janeiro, DP&A,2002.
8 - Jurandir Freire Costa, “O Vestígio e a Aura: Corpo e Consumismo na Moral do Espetáculo”, Rio de Janeiro, Garamond, 2004.
9 - Paula Sibília, “O Homem Pós-orgânico”, Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 2002.


Ver aqui o artigo completo:

http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2792,1.shlm

novembro 05, 2006

"Os principais estratos que manietam o homem são o organismo, mas também a significância e a interpretação, a subjectivação e a sujeição".

"Os principais estratos que manietam o homem são o organismo, mas também a significância e a interpretação, a subjectivação e a sujeição.

O conjunto de todos eles separa-nos do plano de consistência e da máquina abstracta, precisamente onde já não há regime de signos, mas onde a linha de fuga efectua a sua própria positividade potencial, e a desterritorialização a sua potência absoluta.

Ora, a este respeito, o problema fundamental é inverter o agenciamento mais favorável: fazê-lo passar, da sua face orientada para os estratos, para a outra face orientada para o plano de consistência ou o corpo sem órgãos.

A subjectivação leva o desejo a tal ponto de excesso e de desprendimento que este deve, ou afundar-se num buraco negro, ou então mudar de plano. Desestratificar-se, abrir-se a uma nova função, a uma função diagramática. Que a consciência deixe de ser o seu próprio duplo, e que a paixão já não seja o duplo de um para o outro. Fazer da consciência uma experimentação de vida, e a paixão num campo de intensidades contínuas, uma emissão de signos-partículas. Construir o corpo sem órgãos da consciência e do amor. Utilizar o amor e a consciência para abolir a subjectivação: 'para ser um grande amante, o magnetizador e o catalizador, há que ter sobretudo a sabedoria de não ser mais que o último dos idiotas'.

Utilizar o Eu penso para um devir-animal, e o amor para um devir-mulher do homem. Des-subjectivar a consciência e a paixão. Será que não existem redundâncias diagramáticas que não se confundam nem com os significantes, nem com as subjectivações? Redundâncias que já não seriam nódulos de arborescências, mas sim re-nodulações e prolongamentos num rizoma?

Ser gago da linguagem, um estrangeiro na sua própria língua."

(Gilles Deleuze et Félix Guattari, Capitalisme et Schizophrénie. Mille Plateaux, Paris, Les Editions de Minuit, 1980, pp. 167-168)

É curioso como a árvore dominou a realidade ocidental e todo o pensamento ocidental, da botânica à biologia, a anatomia, mas também a gnoseologia...

"É curioso como a árvore dominou a realidade ocidental e todo o pensamento ocidental, da botânica à biologia, a anatomia, mas também a gnoseologia, a teologia, a ontologia, toda a filosofia...: o fundamento-raiz, Grund, roots e fundations.

O Ocidente tem uma relação privilegiada com a floresta e com o desmatamento; os campos conquistados no lugar da floresta são povoados de plantas de grãos, objeto de uma cultura de linhagens, incidindo sobre a espécie e de tipo arborescente; a criação, por sua vez, desenvolvida em regime de alqueire, seleciona as linhagens que formam uma arborescência animal.

O Oriente apresenta uma outra figura: a relação com a estepe e o jardim (em outros casos, o deserto e o oásis) em vez de uma relação com a floresta e o campo: uma cultura de tubérculos que procede por fragmentação do indivíduo; um afastamento, um pôr entre parênteses a criação confinada em espaços fechados ou relegada à estepe dos nômades.

Ocidente, agricultura de uma linhagem escolhida com muitos indivíduos variáveis; Oriente, horticultura de um pequeno número de indivíduos remetendo a uma grande gama de "clones". Não existiria no Oriente, notadamente na Oceania, algo como que um modelo rizomático que se opõe sob todos os aspectos ao modelo ocidental da árvore?

Haudricourt vê aí uma razão da oposição entre as morais ou filosofias da transcendência, caras ao Ocidente, àquelas da imanência no Oriente: o Deus que semeia e que ceifa, por oposição ao Deus que pica e desenterra (picar contra semear15). Transcendência, doença propriamente européia. E, de resto, não é a mesma música, a terra, não tem aí a mesma música. E também não é a mesma sexualidade: as plantas de grão, mesmo reunindo os dois sexos, submetem a sexualidade ao modelo da reprodução; o rizoma, ao contrário, é uma liberação da sexualidade, não somente em relação à reprodução, mas também em relação à genitalidade. No Ocidente a árvore plantou-se nos corpos, ela endureceu e estratificou até os sexos. Nós perdemos o rizoma ou a erva".

Gilles Deleuze e Felix Guattari, Mil Platôs. Capitalismo e Esquizofrenia. Vol. 1, São Paulo, Editora 34, 1995, p. 84

DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix, Mil Platôs

Gilles Deleuze e Felix Guattari, Mil Platôs. Capitalismo e Esquizofrenia. Vol. 1, São Paulo, Editora 34, 1995

Tradução brasileira de:

Gilles Deleuze, Félix Guattari, Mille Plateaux, Minuit, coll. « Critique », Paris, 1980, 645 p.


Podem ver esta obra "Mil Platôs" (português do Brasil) aqui:

DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix - Mil Platôs Vol. 01

DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix - Mil Platôs Vol. 02

DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix - Mil Platôs Vol. 03

DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix - Mil Platôs Vol. 04

DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix - Mil Platôs Vol. 05

outubro 29, 2006

Vazio

Talvez esteja demasiado envolvido em assuntos que reproduzem o vazio. Ou tentativas de o encher. Ou pré- encher.

Talvez o problema esteja mesmo neste pré-enchimento. Daí a arte do vazio... Uma arte que podemos aprender com os cães. Henri Bergson dizia que a noção qualitativa de tempo, o tempo que dura no seu vazio-cheio, é facilmente apreendida pelas crianças (antes de carregarem demasiado a cabeça...) e pelos animais.


(Um pensamento que me surgiu numa conversa com uma amiga).

outubro 26, 2006

"O tempo cinematográfico não é o que corre, mas o que dura e co-existe.






















"... Como se pode dizer que um material tão frágil conserva? E que significa conservar, que parece ser uma função bastante modesta?

Não se trata do material, mas da própria imagem: você mostra que a imagem cinematográfica conserva em si, conserva a única vez em que um homem chorou, no Gertrud de Dreyer, conserva o vento, não as grandes tempestades com função social, mas "aí onde a câmara joga com o vento, o antecipa, volta atrás", como em Sjöström ou nos Straub, conserva ou guarda tudo o que possa sê-lo, crianças, casas vazias, plátanos como em Sans toit ni loi, de Varda, e em todo o Ozu, conservar, mas sempre a contra-tempo, porque o tempo cinematográfico não é o que corre, mas o que dura e co-existe".

Gilles Deleuze, Carta a Serge Daney, in "Conversações", Fim de Século


Extraído do blog:
http://last-tapes.blogspot.com/2006/10/le-dur-dsir-de-durer.html

outubro 05, 2006

L'Abécédaire de Gilles Deleuze - Pierre-André Boutang (1996) [PART 2]

Part 2 of the eight-hour series of interviews between Gilles Deleuze and Claire Parnet, filmed by Pierre-André Boutang in 1988-1989. [PART 2]

L'Abécédaire de Gilles Deleuze - Pierre-André Boutang (1996) [PART 1]

The eight-hour series of interviews between Gilles Deleuze and Claire Parnet, filmed by Pierre-André Boutang in 1988-1989. The individual episodes are "A comme Animal," "B comme Boisson," "C comme Culture," "D comme Désir," "E comme Enfance," "F comme Fidélité," "G comme Gauche," "H comme Histoire de la philosophie", "I comme Idée, "J comme Joie", "K comme Kant", "L comme Literature,"M comme Maladie,"N comme Neurologie", "O comme Opéra", "P comme Professeur", "Q comme question," "R comme Résistance", "S comme Style","T comme Tennis","U comme Un", "V comme Voyage", "W comme Wittgenstein, "X & Y comme inconnues," "Z comme Zigzag" (PART 1)