janeiro 22, 2013

Ecologia da mente: uma nova combinação de "ânimo" e "anima"

                       Todas as pequenas micro-acções de escrita lúcida, em todas as redes sociais do planeta, são como gotas num oceano. Se forem milhões, podem mudar (estão a mudar!) o rumo das coisas, a criar um novo mundo. Toda a mudança é colectiva mesmo quando nos parece ser individual. 

                     Devemos incentivar, com o nosso exemplo de vida nomeadamente nas redes sociais, uma nova combinação colectiva de ânimo e anima, usando as palavras do psicólogo C. G. Jung. Uma ecologia da mente: ânimo para a acção, em si mesma, combinada, ao mesmo tempo, com um tempo de Anima, um movimento interior, uma dobra que evite a acção sem nexo, perda de energia, luta de egos. Evitar sempre que possível a entropia das emoções fáceis. Seguir os conselhos dos nossos "abuelitas" e "abuelitos", mulheres e homens sábios que nos podem ajudar, com a sua experiência viva, a combinar o estado de acção, o "tonal" como dizem no México, com a capacidade de criar como "Nagual", de imaginar sentindo, agindo no mundo e em si, novos mundos neste mundo. 

                         Usando as palavras de um "abuelito" escritor, o uruguaio Eduardo Galeano, este mundo, o nosso planeta, está grávido de um outro mundo, um mundo novo, uma utopia viva. Uma gravidez complicada, a acontecer em milhões de pequenas redes sociais, mas essencial para a sobrevivência da mãe-terra.

José Pinheiro Neves


Entrevista de Eduardo Galeano:

Our musical alphabet is poor










Our musical alphabet is poor


"Our musical alphabet is poor and illogical. Music, which should pulsate with life, needs new means of expression, and science alone can infuse it with youthful vigor. Why, Italian Futurists, have you slavishly reproduced only what is commonplace and boring in the bustle of our daily lives. I dream of instruments obedient to my thought and which with their contribution of a whole new world of unsuspected sounds, will lend themselves to the exigencies of my inner rhythm." 


Chou Wen-Chung (Ed.), Edgard Varèse Lecture, 391, Nr. 5. June 17, 1917. Translated by Louise Varèse; Quoted in: Classic Essays on Twentieth-Century Music: A Continuing Symposium (1996), ISBN 0028645812.


"Cada composição musical cada romance ou cada pintura refletiam, no período entre 1600 e 1900, uma linha de tempo como modelo de um universo em sincronia. Em cada composição musical, havia uma linha de progressão de acordes com os quais todas as notas eram sincronizados. Na pintura havia a perspectiva, uma linha que guiava o olhar do espectador e todos os objetos eram sincronizados e alinhados de acordo com essa linha. Uma linha de tempo, de um tempo universal, omnipotente, um tempo absoluto como lhe chamou Newton (Chadabe, 1997)".




Um texto que nos leva a pensar, João Cardoso. Vou partilhar contigo a minha experiência recente. Curiosamente, desde há uns dois anos atrás, comecei a interessar-me mais por música já não como um apreciador mas como um co-criador. Não no sentido de ser "artista", mas antes como um "amador" do fenómeno que, de vez em quando, realiza experimentações. Interessou-me principalmente a questão da origem da sensação de "harmonia" ou "afinação". O motivo inicial foi uma tese de um amigo meu Tiago Henriques que, sendo músico, "utilizou" os sons como terapia no seu estágio de psicologia, como mudança de estado de percepção. O seja, alguns sons (que não se escutam porque são infra sons) podem ter efeitos semelhantes a anos de meditação ou de consumo de plantas que mudam a percepção. Nesse sentido, comecei por fazer experiências musicais que eram ingénuas mas ao mesmo tempo não eram. Como se eu fosse um analfabeto começando a aprender a ler e escrever. Aquilo que Gilles Deleuze designava por ser um principiante da filosofia que coloca questões simples mas fundamentais (ver Edmundo Cordeiro, "Prefácio", Gilles Deleuze, O mistério de Ariana, Lisboa, Ed. Vega – Passagens, 1996). Uma muito simples a que ainda tento responder: porque é que um certo alinhamento de sons soa harmónico e outro não? Porque se diz que certa música é afinada e outra não? Em termos mais elaborados, a questão da tonalidade no seu sentido mais lato. "Tonality" e não apenas aquilo que se costuma designar por "Key", que se refere, no essencial, à aplicação das regras da tonalidade.

José Pinheiro Neves


janeiro 20, 2013

A tendência estética não se confunde com a arte




                                                               Fragmento da pintura "Contos bárbaros" do pintor Paul Gauguin  1902).



 A "arte" é cada vez mais um domínio da vida comandada pelo negócio, pela negação do ócio. Mesmo dentro da ideia abstracta de arte, as obras criadoras de impressão estética que poderiam ser subversivas no momento da criação, que poderiam ter uma aura de sagrado, são rapidamente reverenciadas, colocadas em espaços de tipo "religioso". 

O que caracteriza a impressão estética não se reduz à arte. Segundo Simondon, é a perfeição do acabamento que lhe confere uma dimensão universal, passando a constituir um equivalente da totalidade mágica. A obra de arte, seja um "post" no Facebook, um filme, um livro, uma música ou uma pintura, permite a impressão estética sem ser essa percepção.

Nos tempos de agora, o fenómeno religioso e a técnica envenenaram, por assim dizer, a experiência. Condições que nos levam a ter muito cuidado com o que se diz e faz. Ser "artista" assemelha-se um pouco a ser um criador que perdendo a consciência normalizada se torna mais consciente. Uma forma que se afasta da "religião-medo" dos monoteísmos. 


 Palavras de Gilbert Simondon (1989): "a obra de arte fazendo parte de uma civilização utiliza a impressão estética e satisfaz, talvez artificialmente e de maneira ilusória, a tendência do homem para procurar, quando exerce um certo tipo de pensamento, o complemento em relação à totalidade. […] Mas a obra de arte não reconstrói realmente o universo mágico primitivo: este universo estético é parcial, inserido e contido no universo real e actual proveniente do desdobramento. De facto, a obra de arte mantém (e preserva) sobretudo a capacidade de experimentar a impressão estética, tal como a linguagem permite a capacidade de pensar, sem no entanto ser o pensamento". 

A tendência estética é, de algum modo, uma nostalgia viva da união mágica entre o ser e mundo em condições diferentes das pré-modernas. 

Citações de:

Gilbert Simondon, Du mode d'existence des objets techniques, Paris, Aubier, 1989.




Texto revisto em 15 de Janeiro de 2015.


Ver nota sobre Gilbert Simondon em:
http://rizomando.blogspot.mx/2004/09/pensamento-tcnico-e-pensamento-esttico.html

dezembro 04, 2012

"Contos bárbaros" do pintor Paul Gauguin


Fragmento da pintura "Contos bárbaros" do pintor Paul Gauguin (1902).



Uma imagem, criada com o meu iphone, que representa um fragmento da pintura "Contos bárbaros" do pintor Paul Gauguin pintada em 1902, no final da sua vida. 

"Representa a dos mujeres indígenas sentadas y con el cabello adornado por flores. Detrás de ellas, un hombre pelirrojo vestido con un traje malva, cuyos rasgos recuerdan a los del pintor simbolista Jacob Isaac Meyer Haan. Les rodea una naturaleza con una bruma gris, flores y árboles." in http://es.wikipedia.org/wiki/Cuentos_b%C3%A1rbaros 


"Contos bárbaros"? O que haverá de bárbaro na imagem? O olhar do pintor? Haverá algo de sinistro na sua "mirada"? De diabólico, de bárbaro? A figura detrás quase estilizada como uma máscara do Carnaval de Veneza, numa pose em que olha directamente o pintor por detrás da tela, faz um jogo de contraste com as duas figuras femininas despidas. A primeira mulher quase andrógina está meditando como num asana de yoga com os pés em cruz com um olhar intenso e ausente, algo triste. Mas de onde exala um forte carácter, tranquilo. A segunda, mais feminina, está descontraída ignorando totalmente o personagem masculino.


jpn

Uma dançarina, de costas para o público, sentada sobre uma antiga Unidade Central de Processamento...




"Uma dançarina, de costas para o público, sentada sobre uma antiga Unidade Central de Processamento (CPU). Braços atados a teclados, pés atados a teclados. Cabelos presos por um fio. Esta imagem introduz um dos planos de coevolução entre hu
manos e máquinas, explorado no espetáculo de dança contemporânea Móvel (2011) que integra processos de criação em dança como experimentos de pesquisa com o objetivo de pensar relacionalidades entre humanos e não/humanos." 


in Danielle Milioli e Dolores Galindo, "EXOEVOLUÇÕES ENTRE CORPO E MÁQUINAS: SOBREVIVÊNCIA NA E À DANÇA", 
ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA

Comitê Interfaces da Dança e Estados do Corpo – Julho/2012,
in http://www.portalanda.org.br/anais_2012/4/COMUNICACOES-ORAIS/DANIELLE-MILIOLI-DOLORES-GALINDO.pdf