outubro 14, 2013

Última foto de Fernando Pessoa em 1935.


                                          Última foto de Fernando Pessoa em 1935. 


Fonte: Luís Resina, Astro biografia de Fernando Pessoa. Portugal -. A mensagem da "mensagem", Lisboa, Edições Mahatma, 2012. Fotografia a partir do livro por José Pinheiro Neves 

janeiro 29, 2013

"Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus."










"Deus, humanidade, niilismo e outros temas..."




"Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido — sem saber porquê



E então, porque o espírito humano se auto-limita tendendo naturalmente para criticar porque sente, e não porque pensa, a maioria ainda escolhe a Humanidade para sucedâneo de Deus.

Continuo a achar que a Humanidade, sendo uma mera ideia biológica, e não significando mais que a espécie animal humana, não é mais digna de adoração do que qualquer outra espécie animal.


Este culto da humanidade, com seus ritos de Liberdade e Igualdade, pareceu-me sempre uma revivescência dos cultos antigos, em que animais eram como deuses, ou os deuses tinham cabeça de animais. 


O culto do humanismo, presente na maioria dos portugueses, é um autêntico vírus, um novo ópio do povo. Permite uma consciência tranquila perante o horror quotidiano.

A opção não é entre um Deus todo poderoso e uma crença difusa na espécie humana, uma crença falsa porque desmentida todos os dias pelas acções. Ser inumano é ser mais humano do que os humanistas.

Pertenço àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem vêem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado. Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como ele, nem aceitei nunca a Humanidade. 

Assim, não sabendo crer em Deus, e não podendo crer numa soma de animais, fiquei, como outros da orla das gentes, naquela distância de tudo a que comummente se chama a Decadência. A Decadência e a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia.



Mas portugueses: não fostes vós quem iniciou esta consciência planetária, mais do que humana, quando mostrastes ao mundo a terra redonda? Os mares nunca antes navegados não eram o fim do mundo? Quando partilhastes uma percepção cósmica do mundo, tendo as estrelas como guias? Quando nos permitiram mais tarde ver que os autênticos monstros oceânicos estavam dentro de nós? 



Texto inspirado em Fernando Pessoa (Pedro Rodrigues Costa e José Pinheiro Neves)
Versão de 12 de Fevereiro de 2014

Texto original:

Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido — sem saber porquê. E então, porque o espírito humano tende naturalmente para criticar porque sente e não porque pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus. Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem vêem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado. Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como ele, nem aceitei nunca a Humanidade. Considerei que Deus, sendo improvável, poderia ser, podendo pois dever ser adorado; mas que a Humanidade, sendo uma mera ideia biológica, e não significando mais que a espécie animal humana, não era mais digna de adoração do que qualquer outra espécie animal. Este culto da Humanidade, com seus ritos de Liberdade e Igualdade, pareceu-me sempre uma reviviscência dos cultos antigos, em que animais eram como deuses, ou os deuses tinham cabeças de animais.
Assim, não sabendo crer em Deus, e não podendo crer numa soma de animais, fiquei, como outros da orla das gentes, naquela distância de tudo a que comummente se chama a Decadência. A Decadência e a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia."

Fernando Pesssoa, Livro do Desassossego, in http://arquivopessoa.net/textos/2518 

Viajar. Passar uns dias numa pequena cidade.





                          © José Pinheiro Neves, 2013





Passar uns dias numa pequena cidade. Passar, apenas. A autêntica viagem é para dentro. Ou melhor, para o abismo do dentro/fora. Autêntica viagem que não se deixa  apanhar, "atrapar" pelo espaço linear. Com as falsas viagens de quem está cada vez mais atolado. Preso por dentro. Anestesiado por um feitiço poderoso. Mentira, mascarada da capitalosociedade. De alguém que, há muito tempo, capitulou. 

"Todo viaje verdadero es intensivo, es cuestión de intensidad, de sobrepasar el placer tal y como trata de expresar según una cita de Samuel Beckett: 'Uno es un gilipollas, pero no tanto como para viajar por placer'."

Gilles Deleuze in "Abécédaire" http://es.wikipedia.org/wiki/El_Abecedario_de_Gilles_Deleuze 



"Os cinco dias que passei em Lisboa viraram minha cabeça; começo a pensar que a viagem certa seria escolher uma cidade -pequena - e lá ficar por 10, 15 dias, prestando atenção às pessoas, aos costumes, vivendo uma vida normal, passeando a pé, sem obrigação de ver nada. Eleger um café para passar duas vezes por dia, onde acabaria sendo reconhecida e tivesse alguém que me dissesse bom dia, um restaurante onde o garçom talvez me chamasse pelo nome, e me sugerisse o que comer. Uma cidade onde não houvesse nada para comprar, a não ser um queijo da terra, um doce da terra; uma cidade que, sobretudo, não estivesse na moda. Penso em uma cidade pequena, talvez o Porto, e vou contar por quê".

Danuza Leão

janeiro 24, 2013

A fenda - Gilles Deleuze


                                                                                                                                                                                          © José Pinheiro Neves



"A questão de saber se a fenda pode evitar encarnar-se, efectuar-se no corpo debaixo desta ou de outra forma, não depende evidentemente de regras gerais. A fenda é só uma palavra enquanto o corpo não se tenha comprometido com ela, enquanto o fígado, o cérebro, os órgãos não apresentam estas linhas em que se lê o futuro, e que profetizam por si mesmas. Se se pergunta porque é que a saúde não basta, porque é que a fenda é desejável, talvez seja porque nunca se tinha pensado senão por ela e sobre os seus bordos, e tudo o que foi bom e grande na humanidade entra e sai por ela, entre gentes prontas a destruir-se a si mesmas, e que antes a morte que a saúde que se nos propõe. Há, por acaso, outra saúde, como um corpo que sobrevive o mais longe possível da sua própria cicatriz, como Lowry sonhando com reescrever uma 'Fenda' que acabará bem, não renunciando jamais à ideia de uma reconquista vital ? É verdade que a fenda não importa se não compromete o corpo, não pelo que ele deixa de ser ou valer quando confunde a sua linha com outra linha, no interior do corpo. Não se pode dizer antes, há que arriscar-se no máximo de tempo, não perder de vista a grande saúde. Só se capta a verdade eterna do acontecimento se o acontecimento se inscreve também na carne; mas devemos dobrar cada vez esta efectuação dolorosa com uma contra-efectuação que a limite, a interprete, a transfigure. Há que acompanhar-se a si mesmo, primeiro para sobreviver, quando se morre. A contra-efectuação não é nada, é a do bufão quando opera só e pretende valer pelo que haveria podido suceder. Mas ser o mesmo do que sucede efectivamente, dobrar a efectivação com uma contra-efectuação, a identificação com uma distância, como o actor verdadeiro ou o bailarino, é dar à verdade do acontecimento a sorte única de não confundir-se com a sua inevitável efectuação, à fenda a sorte de sobrevoar o seu campo de superfície incorporal sem deter-se no cruzamento de cada corpo, e a nós próprios o ir mais longe do que o poderíamos supor. Tanto como o acontecimento puro se aprisiona cada vez para sempre na sua efectivação, a contra-efectuação liberta-o, sempre para outras vezes. Não se pode renunciar à esperança de que os efeitos da droga ou do álcool (as suas revelações) possam ser revividas e recuperadas por si mesmas na superfície do mundo, independentemente do uso de substâncias, se as técnicas de alienação social que determinam esta se convertam em meios de exploração revolucionários. Burroughs escreve sobre isto estranhas páginas que atestam esta busca da grande Saúde, o nosso modo próprio de sermos piedosos: 'Pensai que tudo o que pode alcançar-se por vias químicas é acessível por outros caminhos...' Metralhamento da superfície para transformar o apunhalamento dos corpos, oh psicodelia".

Gilles Deleuze, Lógica del sentido, Barcelona, Paidós, 1989, pp. 168-9 (tradução para português de José Pinheiro Neves)

janeiro 22, 2013

Ecologia da mente: uma nova combinação de "ânimo" e "anima"

                       Todas as pequenas micro-acções de escrita lúcida, em todas as redes sociais do planeta, são como gotas num oceano. Se forem milhões, podem mudar (estão a mudar!) o rumo das coisas, a criar um novo mundo. Toda a mudança é colectiva mesmo quando nos parece ser individual. 

                     Devemos incentivar, com o nosso exemplo de vida nomeadamente nas redes sociais, uma nova combinação colectiva de ânimo e anima, usando as palavras do psicólogo C. G. Jung. Uma ecologia da mente: ânimo para a acção, em si mesma, combinada, ao mesmo tempo, com um tempo de Anima, um movimento interior, uma dobra que evite a acção sem nexo, perda de energia, luta de egos. Evitar sempre que possível a entropia das emoções fáceis. Seguir os conselhos dos nossos "abuelitas" e "abuelitos", mulheres e homens sábios que nos podem ajudar, com a sua experiência viva, a combinar o estado de acção, o "tonal" como dizem no México, com a capacidade de criar como "Nagual", de imaginar sentindo, agindo no mundo e em si, novos mundos neste mundo. 

                         Usando as palavras de um "abuelito" escritor, o uruguaio Eduardo Galeano, este mundo, o nosso planeta, está grávido de um outro mundo, um mundo novo, uma utopia viva. Uma gravidez complicada, a acontecer em milhões de pequenas redes sociais, mas essencial para a sobrevivência da mãe-terra.

José Pinheiro Neves


Entrevista de Eduardo Galeano: